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26/01/2018
Um último gesto | Pedro Valls Feu Rosa

Dia desses li os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de anos pela publicação científica "The Lancet", dando conta de que a poluição está matando mais gente que todas as guerras e atos de violência juntos – 15 vezes mais, para ser preciso. Mata 150% mais que o cigarro, a fome ou os desastres naturais. Ceifa a vida de mais seres humanos que a AIDS, tuberculose e malária somadas – 300% mais.

 

Estima-se que a cada ano a poluição, sozinha, seja responsável por nada menos que nove milhões de mortes prematuras – 92% delas nos países pobres ou em desenvolvimento. Calculou-se que este quadro gera prejuízos da ordem de US$ 4,6 trilhões - algo em torno de 6,2% da economia mundial.

 

Especificamente quanto ao Brasil, a poluição vitimou 101.739 pessoas em 2015 – nada menos que 7,49% do total de mortes no país durante o período. Segundo cálculos feitos pelo Banco Mundial em 2013, a economia brasileira perde robustos US$ 4,9 bilhões por conta da poluição.

 

À primeira vista pode não ser muito clara a correlação entre os índices de poluição e a economia. Mas meditemos sobre um único exemplo: ao remover o chumbo da gasolina, nos idos de 1980, a economia norte-americana ganhou, até 2016, nada menos que US$ 6 trilhões – dinheiro que seria gasto com tratamento de doenças e perda de produtividade.

 

Tenhamos, agora, uma noção da falta de responsabilidade de nossa geração: menos da metade dos cinco mil novos produtos químicos lançados no ambiente desde 1950, que entrarão em nossos organismos, foi testada no que toca aos efeitos que induz sobre a saúde humana.

 

Indo ‘do macro ao micro’, fico a contemplar a nuvem de pó preto que se abate sobre minha cidade. A recordar um discurso de meu saudoso pai, proferido no Congresso Nacional há quase quatro décadas, denunciando-a. De lá para cá a situação só tem feito piorar. E até hoje – parece incrível – ninguém sabe de onde vem este pó preto! Qual seria o motivo? Negligência? Corrupção? Enquanto isso, que padeçam nossos pequeninos, vítimas infelizes das tão comuns doenças respiratórias.

 

Nossa geração, talvez desatenta ao fato de que as coisas da vida passam, e passam muito depressa, já caminha para seu entardecer. Seria pedir demais que, em um último gesto de grandeza, deixasse para as crianças um mínimo que seja a mais de esperança?

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