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22/01/2009
Ponte Getúlio Vargas: o triste fim de um monumento histórico de Linhares

Há 50 anos, Linhares ainda não contava com energia elétrica. O serviço era garantido, diariamente, entre 17 e 23 horas, por um gerador que iluminava as poucas casas da cidade. Os linharenses também não dispunham de rede de esgoto e nem de água encanada. Mas, no dia 22 de junho de 1954, a consolidação de uma obra abriu as portas do município e da região Norte para o futuro. Era inaugurada a Ponte Presidente Getúlio Vargas, com 636 metros de extensão, e que durou 54 anos, 6 meses e 28 dias como a maior do Estado, até desabar, matando uma pessoa, no último dia 19.

  

O presidente da Seccional Regional de Linhares do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (Serlihges), Antônio Bezerra Neto, chegou a anunciar, no aniversário de 50 anos da ponte, que iria requerer o tombamento do monumento. A ponte começou a ser construída no final dos anos 40, no Governo de Carlos Lindenberg. Até então, o transporte de uma margem para outra do rio era feito sobre balsas, barcos e botes. O movimento da cidade de Linhares, na época, se concentrava nos entornos da Rua Conceição e da Praça 22 de Agosto, sendo que a principal atividade econômica consistia no cultivo do cacau e na extração da madeira.

   

Para compor a história da construção da ponte é necessário recorrer aos poucos documentos que foram preservados ao longo do tempo: fotos, artigos de revistas e jornais da época, além de uma fita, filmada em 16mm, que revela imagens surpreendentes da construção da obra e da Linhares daquela época. Este acervo é reforçado pelas lembranças das poucas pessoas ainda vivas, que de uma forma ou outra participaram daquele momento histórico.

  

A memória da Ponte Presidente Vargas tem uma guardiã: a vice-presidente da Serlihges, Teresinha Durão. Segundo ela, a ponte foi construída pela empresa Sociedade Ipiranga de Engenharia e Comércio Ltda., que tinha sede no Rio de Janeiro. Teresinha faz questão de relacionar os principais personagens desta jornada, concluída depois de mais de cinco anos de trabalho. Dois engenheiros eram responsáveis pelas obras: Rubens Brügger de Mello, filho de Eurico da Silva Mello, presidente da construtora, e Luiz Ferraz. O mestre de obras era o português Manoel Alves Palheiro, assassinado anos depois. Ela cita ainda os mecânicos Francisco de Paula Arnal Fabre, o Paco, Antônio Machado e seu próprio marido, Atahualpa Duarte Calmon Costa, que faleceu em 1992.

 

Presidente participou da inauguração

Presença ilustre - A inauguração da Ponte Presidente Vargas contou com a presença do presidente Getúlio Vargas, que 62 dias depois (24 de agosto de 1954) cometeu suicídio.

 

Visita - Quando esteve em Linhares para inaugurar a ponte o presidente Getúlio Vargas aproveitou para conhecer a Lagoa Juparanã, não tendo estendido o passeio até a Ilha do Imperador onde Dom Pedro I já havia estado em 1860.


Material - As pedras usadas na construção da ponte foram extraídas no Pontal do Ouro da Lagoa Juparanã. Eram transportadas pelo barco "Bom Jesus", que após o término das obras foi abandonado logo abaixo da obra que ajudou a construir.

 

Valor - O custo das obras de construção da ponte foi de CR$ 19.124.247,20.

 

Rachaduras - As rachaduras que posteriormente provocaram a desativação da ponte - e agora a sua destruição - foram descobertas casualmente pelo mecânico Atahualpa Duarte Calmon Costa, que havia trabalhado na construção da obra, durante um passeio de barco.

 

Tráfego - O tráfego chegou a ser reduzido, mas o trânsito, cada vez mais intenso, inviabilizou a estrutura. A ponte foi desativada em 1995, quando foi inaugurada a Ponte Joaquim Calmon, ao lado, mais estreita e mais baixa.

 


 

Juntas de boi levavam madeira

Gastão Calmon, 80 anos, filho do prefeito Joaquim Calmon, que administrou o município durante quase todo o período de construção da Ponte Getúlio Vargas (1951 - 1954), relata que a madeira destinada às obras era puxava por juntas de bois e transportada por canoa para não afundar. Segundo ele, o cerne da madeira mais empregada na obra, conhecida como óleo vermelho, era muito compacto e por isso o tronco não boiava. Esta espécie, esclareceu, era a única que suportava o impacto do peso do bate-estaca sem rachar. Uma outra alternativa, disse, era representada pelo ipê, mas esse tipo de tronco, conforme Gastão, já não era tão resistente e necessitava de cuidados especiais para resistir às pancadas.

 

 

Histórias da construção

Como presente de aniversário do cinqüentenário da Ponte Presidente Getúlio Vargas, foi descoberto um filme contendo imagens da época e que mostra a obra em construção. O material foi doado aos linharenses por Eurico Silva Mello, filho de um dos engenheiros que coordenou os trabalhos. O filme foi produzido em uma fita de 16 milímetros e tem cerca de 30 minutos de duração. As imagens são surpreendentes. Além de mostrar vários aspectos da obra, ainda na fase inicial de concretagem, revela detalhes importantes sobre a cultura e a economia da época.

Uma linharense conseguiu impedir que trabalhadores insatisfeitos com o atraso do pagamento deflagrassem uma greve. Trata-se de Diva Pestana Durão, 85 anos, que até hoje guarda a cópia de um exemplar de A GAZETA, de 1954, contendo notícias sobre a Ponte Presidente Vargas. Diva faz questão de esclarecer que não era comum isso ocorrer. Entretanto, conta, em determinado período da obra, devido a um atraso no repasse dos recursos, os funcionários ameaçaram paralisar as atividades. Foi então que ela decidiu dialogar com os trabalhadores. Ficou acertado que Diva faria o pagamento com recursos próprios. Oito dias depois ela foi ressarcida.

 

 

Ex-motorista diz que salário não era bom

Sebastião Rodrigues de Freitas, 76 anos, lembra que quando a ponte começou a ser construída trabalhadores de Linhares largaram tudo para se fichar na empresa que ia tocar as obras. Ele, por exemplo, abandonou o emprego no comércio. Como motorista de uma caçamba da marca GMC participou do aterro da cabeceira da ponte até onde atualmente fica o posto da Polícia Rodoviária Federal. Sebastião ainda guarda a Carteira Profissional da época.

 


 

Ministério Publico Federal instaura inquérito sobre queda de ponte

 

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou na tarde de terça-feira (20) à Polícia Federal instauração de inquérito para investigar eventual responsabilidade de servidores do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT) no desmoronamento da Ponte Getúlio Vargas, em Linhares.

  

Caso o inquérito seja instaurado, a polícia tem prazo inicial de 30 dias para concluí-lo. Esse limite pode ser estendido, caso necessário. Ao término da investigação, caberá à corporação indiciar ou não possíveis responsáveis. O inquérito é enviado novamente ao Ministério Público, que se assim entender, denuncia o acusado à Justiça.

  

Na terça-feira (20) o superintendente do DNIT no Estado, Élio Bahia, gerou polêmica ao afirmar que, mesmo após a tragédia, "a ponte não oferece riscos a pedestres". No momento do desmoronamento, duas pessoas que faziam exercícios físicos na ponte caíram junto com os vãos. Uma foi resgatada, outra está desaparecida. Segundo o superintendente, o que causou o desmoronamento da ponte foi uma fatalidade. "O que houve foi um fato imprevisível, um volume de água muito grande, com material argiloso e pedras se concentrando sobre o bloco central, que está dentro do rio. Esse material provocou o tombamento da ponte", explicou.

  

O prefeito de Linhares, Guerino Zanon (PMDB), informou, em nota oficial, que aguarda um comunicado oficial do DNIT quanto ao futuro da Ponte Getúlio Vargas. Caso o DNIT informe que deixará a ponte no estado em que se encontra, a prefeitura ameaça procurar os órgãos competentes para tomar as providencias cabíveis.

 


 

Ponte foi reformada e iluminada na administração José Carlos Elias

 

A Ponte Getúlio Vargas foi transformada na administração do prefeito José Carlos Elias (2005 - 2008) em nova opção de lazer para os moradores e visitantes, servindo como pista para caminhadas, inclusive noturnas, devido à inauguração do sistema de iluminação. O local passou a contar com uma academia ao ar livre, construída do lado da cidade, com 11 aparelhos fixos para exercícios físicos e área de estacionamento.

  

O parapeito da ponte foi reformado e ganhou nova pintura. Foram substituídas 62 peças danificadas. Um total de 1.050 metros de extensão foi demarcado para a orientação dos praticantes de caminhadas e corridas. Após a cabeceira da ponte, no sentido Sul, a prefeitura também construiu cercas de eucalipto tratado.

  

Houve ainda a recuperação do asfalto ao longo de toda a extensão da pista de caminhada e, logo depois da ponte, construída uma rotatória de contorno no trevo de acesso a Jataipeba. Dois portais, sendo um em cada cabeceira da ponte, acabaram não sendo instalados, assim como o prometido reflorestamento de uma área com árvores frutíferas, que deveria receber 150 mudas entre manga, carambola, jaca, graviola e abacate.

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